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Surpreenda alguém...



"' Surpreenda alguém com uma boa palavra, com um gentil e sincero elogio, com uma flor que acolhe, com um abraço que fortifica, com um gesto amável que somente almas sensíveis reparam e demonstram, somente pessoas agradáveis podem avaliar a importância dos pequenos detalhes, solte as amarras do passado, viva o presente e surpreenda você mesmo com um novo dia, repleto de gentilezas com seu próprio corpo e acalmando sua mente, surpreenda a cada dia uma nova pessoa e por fim será uma roda de felicidade aonde você pousar, pois somos aves que voam quando somos gentis e amáveis.""

Dra. Miriam Zelikowski

São Paulo que...



São Paulo, que mora em mim.

A primeira impressão do menino de interior chegando a uma floresta
de edifícios. Senti-me soterrado, assombrado pelo colosso que é essa
cidade altiva. Fiquei atônito com a quantidade e diversidade de
restaurantes, bares, hotéis, padarias, cafés, cinemas, lojas,
vitrines. Mas foi um momento mágico, e o esmagamento transmutou-se em
encantamento. Hoje não tenho medo, não tenho assombro. Tenho loucura,
a mesma loucura de Mário de Andrade: sou um desvairado pela
Paulicéia".

"Tenho vontade de ver essa cidade mais bonita, mais limpa,
valorizando mais - e principalmente - a região central. Quiçá
transformando pichadores em artistas, valorizando a força poética
desse povo. São Paulo mora dentro de mim. É parte de meu sistema
nervoso central, formado por um conjunto de um milhão de motivos
amorosos".

"São Paulo me ilumina, por dentro, com suas cores. A variedade
cromática dos seus parques, Ibirapuera, Carmo, Juventude, Aclimação,
Trianon, Campestre. A variedade dimensional das suas arquiteturas de
granito, pedra sabão, mármore, ferro, concreto, aço, tijolos,
azulejos e vitrais, em prédios, bangalôs, varandas, sacadas, igrejas,
capelas, caixotes e tendas. A variedade sagrada de suas flores,
floreiras, vasos, bancas, vitrines, esquinas. A variedade tremulante
das suas aves, das suas bandeiras, seus lençóis e bandeirolas. A
variedade gastronômica dos seus orientais, regionais, mediterrâneos,
contemporâneos. São Paulo se derrama em mim, pelas minhas veias. Cada
gota uma nacionalidade, trezentos pedaços de glórias e de histórias.
Sua geografia arterial reproduz o caminho de minhas safenas, cavas,
subclávias e aortas, em avenidas corpóreas como a 23 de maio,
Paulista, Consolação, Ipiranga e Liberdade.".

"São Paulo do charmoso bairro em que vivo Higienópolis. Das Praças
Vila Boim e Buenos Aires, de amigos fascinantes, das múltiplas
tribos. São Paulo é o coroamento de raças, etnias e credos. É a
epopéia da heterogeneidade, se move, se alteia, se levanta, não pára,
dentro de mim.
Eu moro em São Paulo. Mas, antes disso, São Paulo mora
em mim".
Gabriel Chalita

Magister in libris



Magister in libris


O escritor é, por definição de sua própria ocupação, do seu próprio fazer, um praticante do magistério. Desempenha essas duas ocupações de maneira tão complementar que é comum observar, em obras literárias, a presença de mestres-personagens. De certa maneira, uma espécie de projeção, em muitos casos. Arnaldo Niskier, por exemplo, é um professor na vocação e um escritor na convicção. Um papel que Gabriela Mistral assumiu, na vida e na arte, com maestria - para usar uma licença poética.
Alguns professores são quase icônicos, na literatura. A professora no magistral conto de Lygia Fagundes Telles, em "Papoulas em feltro negro", por exemplo. Todo o seu caráter e a sua dedicação profissional nos são apresentados pela narradora, perdida nas suas memórias e questionamentos de mocinha insegura. Mas há outra professora, na literatura brasileira, que chama a atenção, principalmente pelo que foi impedida de realizar.
No denso romance "São Bernardo", Graciliano Ramos põe o personagem Paulo Honório a narrar a sua vida em perspectiva. Começou a vida como guia de cego e, à custa de desonestidade e de uma solidão absoluta, torna-se o dono da Fazenda São Bernardo. A obra trata, por vias tortas, de felicidade. Justamente pelo oposto. Paulo Honório é um homem infeliz. A certa altura da vida ele só queria um herdeiro, e acaba escolhendo, para exercer o papel de mãe, a loura professora Madalena. O fazendeiro sombrio imagina poder subjugar Madalena, mas a moça tem os apanágios da profissão: é solidária, humanitária, e caridosa. Ela não concorda com a exploração a que o marido submete os empregados, humilhando-os pela força e pela opressão financeira. Madalena nunca se rendeu à dominação de Paulo Honório, a tal ponto que prefere a morte a colaborar com a posição desumana do marido. Este, no fim da vida, ao lembrar a perda da mulher que amava, mas que não respeitava, diria: "A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste." E isto era o que Madalena, a professora tinha de sobra: alma.
Madalena viveu como professora. E, a despeito de ter sido uma personagem criada em 1934, traz os fundamentos da pedagogia contemporânea. Ensinou pelo exemplo, estudou, buscou, contestou. Superou as vicissitudes pela transcendência simbólica da morte. E deixou legado, mesmo a pessoas que não foram formalmente aprendizes seus. Tanto que, depois de sua morte, os empregados assumem a sua posição revolucionária e vão abandonar Paulo Honório, que enfim enfrenta a decadência, ele que não aprendeu a viver. Não conheceu o prazer de aprender.
Cecília Meirelles, ela também uma professora nos escritos, sintetizou numa frase o pensamento da moderna pedagogia: "Ensinar é acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação - mas por uma contemplação poética afetuosa e participante."
E voltamos ao princípio basilar do magistério na literatura. O escritor e o professor trabalham com três premissas: afeto, solidariedade e compreensão. Há muitas formas de desenvolver conhecimento, mas o ato de educar só se dá com afeto, só se completa com amor. A educação se realiza na sala de aula, em casa, na rua, em qualquer lugar onde haja convívio, principalmente quando se consegue fazer a intertextualidade das cenas da vida com as cenas trabalhadas na literatura. Os professores do cotidiano têm desafios enormes. Têm de conhecer a matéria que terão de trabalhar com maestria e inovação. Isto porque o aluno mudou e já não aceita ser a parte passiva da relação ensino-aprendizagem. Os alunos estão mais inquietos e menos concentrados. O desafio, assim, é ser um problematizador, não um facilitador do processo de aprendizagem. Mas, além da nova didática, o professor precisa de outro conhecimento - o conjunto dos sonhos, aspirações, traumas e bloqueios do seu aluno.
O professor disputa com a família desagregada, que não educa e que muitas vezes nem tem essa preocupação. Eis que educar não é fácil; mas é um trabalho que, bem feito, dignifica.
Há premissas indispensáveis que devem ser observadas pelo professor: o aluno não é mau, embora possa ser ou estar disperso ou indisciplinado; o aluno não é uma tabula rasa; o conhecimento é prazeroso. Ele, o professor, é o líder desse processo. Seja nas páginas da literatura, nas ruas ou nas salas de aula deste gigantesco Brasil. Nossa homenagem aos mestres de ontem, de hoje e de sempre. Oxalá o Brasil volte a valorizar seus professores. A geração que virá depois agradece.

(Artigo publicado no Jornal de Letras, edição de novembro de 2007)
Gabriel Chalita

Bullying...



Bullying, o crime do desamor

O motorista que, no trânsito, por estar a bordo de um carro novo e possante, encosta no veículo da frente e exige passagem, deseducadamente, piscando os faróis, buzinando, pressionando, está praticando um ato de violência. O político que se acha mais importante do que o resto do mundo e trata as pessoas com arrogância, está sendo, de algum modo, violento. Podemos dizer o mesmo do empresário que humilha seus funcionários, só porque lhes paga salário. Essas pessoas, com atitudes que agridem ou intimidam, estão praticando o que possivelmente já praticaram em outros ambientes, inclusive na escola: o bullying. A palavra vem do adjetivo bully, que em inglês significa valentão. Quem é mais forte tiraniza, ameaça, oprime, amedronta e intimida os mais fracos. Na escola, essa atitude pode ter resultados drásticos, porque leva a vítima, muitas vezes, ao isolamento e até ao abandono. O bullying agride a alma do indivíduo, o apequena pelo medo ou pela vergonha, pela dor física ou moral.